RPG Next apresenta… Contos Narrados #008 – Contos da Noite 04 – Os três amigos

 

   ATENÇÃO: Esse podcast é recomendado para maiores de 14 anos.

 

 

Os três amigos

 

Eram, os três, homens de quarenta anos. Um deles engravatado, os outros dois um pouco menos formais. Amigos de infância que não se falavam havia muitos anos e que se encontravam na contingência de ter de afetar uma familiaridade há muito perdida e de fingir uma camaradagem que o tempo havia se encarregado de transformar em mera lembrança, como a exposta em um retrato envelhecido e desbotado.

Nenhum deles tinha família. Os pais de todos eles haviam morrido e nenhum fora casado. E, em uma tentativa de reaproximação, se reuniram, naquela noite chuvosa, em um quarto de hotel para jogar cartas, beber e contar histórias. Como nos velhos tempos, ou, pelo menos, um arremedo disso.

− Sua vez, Zé.

− Eu sei. Não me apresse.

Ele detestava ser chamado assim. O outro, por puro espírito de galhofa, insistia no apelido do colégio.

− É para hoje, cara. – Alberto insistiu.

José, concentrado nas cartas, olhou por cima dos óculos. A armação de prata estava meio caída e em conjunto com as sobrancelhas arqueadas, conferiam uma imagem de irritação mal dissimulada.

Alberto sorriu.

− Sorte é uma merda. – sentenciou Alberto.

− Não seria a falta dela? – revidou José.

− Ei, vocês dois, parem de implicar um com o outro. Parecem os mesmos moleques do colégio.

Os dois olharam em direção ao terceiro. Era o Paulo, o emgravatado. O roteirista.

− O Paulo está certo. Vamos parar com isso. Eu estou fora mesmo, não vou bancar a aposta, a mão está mesmo muito ruim. – disse José.

− É assim que se fala. Em homenagem ao bom senso, por que não bebemos mais um pouco e não relembramos velhas histórias? – propôs Alberto.

− As mesmas de sempre? Bobagem. Perda de tempo. Todos sabemos essas histórias de cor e salteado. Nós nos reunimos aqui para conversar sobre o que não sabemos. Faz anos desde a última vez que nos vimos. Para que relembrar essas bobagens do colégio?

− A voz do bom senso, Zé. Aliás, eu não tenho a menor ideia do que vocês fazem hoje em dia. Eu continuo tentando vender meus roteiros. – disse Paulo.

− Sem sucesso.

Foi o comentário de Alberto. Fez-se silêncio entre eles.

− Ei, senhores, vamos beber… Esse aqui é um uísque de primeira, escocês legítimo, envelhecido por trinta anos. – José tentou aliviar o clima.

− Verdade, Zé. Acho que você deveria contar uma das suas histórias para nós, Paulo. O que acha?

Era uma aparente tentativa de desfazer um mal-feito. Paulo não respondeu imediatamente e bebeu um gole do uísque.

− Sim, eu posso contar. Um artista precisa de vivências. Nada dessa babaquice pós-moderna de que todo mundo está de saco cheio. Não. Nós precisamos, muitas vezes, descer muito baixo, chafurdar na merda para encontrar material para uma boa história.

− Tem alguma coisa em mente?

− Tenho, Zé… Tenho. Mas, antes, por que vocês não me falam um pouco desses últimos dez anos? Eu, talvez, pudesse aproveitar alguma coisa.

− Da minha parte, não tenho muito o que contar. Da faculdade, fui direto para uma indústria de alimentos e, hoje, sou engenheiro chefe. Supervisiono as fórmulas para que as guloseimas se tornem vícios quase irresistíveis. Se for para resumir, meu trabalho é vender veneno com gosto de hambúrguer ou de açúcar para criancinhas.

− Esse é o Alberto… Mas, ele tem razão, Paulo. Eu, por minha vez, trabalho em plano de saúde e sou o encarregado de avaliar o risco de processos na justiça. Quando o risco é baixo, aquela vovozinha que precisa do atendimento vai continuar precisando. Ou pode, claro, entrar na fila do SUS.

− O que é a mesma coisa, Zé.

− Verdade, Alberto.

− Temos, todos, sangue nas mãos. – E Paulo brincou com o uísque no copo.

Alguns instantes tensos se passaram sem que ninguém dissesse nada. A lâmpada meio gasta do quarto de hotel compunha um quadro em que aqueles homens poderiam parecer uma assembleia de culpados.

− “Sangue”? Não seja dramático, Paulo. Fazemos um trabalho. Eu tenho que convencer as pessoas a comprar veneno. E, diga-se, ninguém é obrigado. Compra, portanto, quem quer. Já o Zé precisa manter a empresa funcionando para que as pessoas possam continuar tendo atendimento médico. Imagina se qualquer cãibra na unha ganhasse a atenção que as pessoas acham que isso merece?

− “Cãibra na unha” foi boa, Alberto… Obrigado. E é verdade, Paulo. Se um diabético compra chocolates, faz isso porque quer. Cada um que saiba de si. Da minha parte, por causa dessa avaliação de risco, eu acabo salvando muitas vidas.

− Embora o custo disso seja de algumas outras. – ponderou Alberto.

− É uma guerra. Na guerra, pessoas morrem. – defendeu-se José.

− Verdade, Zé. Mas, e você, Paulo? Você falou que “todos” tínhamos sangue nas mãos. Você também tem?

Paulo não respondeu imediatamente. Acendeu um cigarro, deu uma baforada e sorriu.

− Eu matei dois homens.

Os outros se assustaram.

− Esse é algum dos seu roteiros? – José perguntou entre desconfiança e um riso nervoso.

− Era uma vez, um roteirista talentoso. Ele tinha muitas, muitas histórias na cabeça. Grandes histórias. Ele, certa vez, pegou suas economias e partiu em uma grande viagem. Precisava conhecer o mundo, outras pessoas e culturas, novas e diferentes maneiras de pensar. Ele considerava que isso o enriqueceria como indivíduo, que toda essa experiência se entranharia em seu inconsciente e que lhe daria ferramentas para explorar o que outras pessoas viviam em suas próprias peles. Um exercício de empatia, embora, é verdade, não desinteressado e altruísta.

Tragou um pouco mais do cigarro e continuou.

− Ele conheceu a miséria. Putas que se vendiam por um pão com manteiga e um cafezinho, traficantes de drogas, policiais corruptos, exploradores de menores, traficantes de órgãos, fraudadores de licitações, políticos, etc. Enfim, a escória. O roteirista presenciou coisas que vocês não acreditariam. Como um observador neutro, não chegava a tomar parte nas pilantragens e na violência. Não tomava partido, queria apenas conhecer o que o mundo tinha de pior para oferecer. E isso deixava sua consciência tranquila.

Após um gole de uísque, prosseguiu.

− Então, um dia, ele acordou com uma sensação de desassossego. Era algo indefinido, ele não conseguia explicar. Fazia mais de um ano que estava perdido no mundo e isso o fez se lembrar de que ainda tinha sua avó. Resolveu dar um telefonema. Alguém atendeu e ele ficou sabendo que ela havia morrido fazia tempo. Era diabética. Aparentemente sem atendimento médico.

Os outros pareciam duas estátuas. Paulo bateu o cigarro no cinzeiro e continuou:

− O roteirista não tinha mais ninguém. Mesmo que estivesse fora há muito tempo e por livre e espontânea vontade, não pôde deixar de sentir o golpe. A pessoa que atendeu informou que o neto estava sendo procurado para herdar o que ela houvesse deixado. Isso, entretanto, não o interessava. Ele queria vingança.

− Nós sentimos muito, Paulo. Falo por você também, não é, Alberto?

− É claro.

− Vocês estão perdendo a melhor parte da história. Então, o roteirista voltou. Revirando as coisas da avó, descobriu que ela se entupia de doces. Diabética… Velha maluca, não é? Ou, talvez não. Afinal, se você está no fim da sua vida, que melhor hora para aproveitar o quanto resta? Encontrou o cartão do plano de saúde e o guardou. Queria saber porque ela não havia sido atendida. Foi à empresa e, usando o que havia aprendido em suas andanças, entrevistou os funcionários. Descobriu algo que o enfureceu sobre o maldito plano de saúde.

Lá fora, apesar da chuva, a noite corria silenciosa quando um trovão se fez ouvir.

− Ela tinha direito ao atendimento. O plano de saúde, porém, negou-se a dar cobertura.

Os outros dois o encaravam paralisados. Paulo se serviu de mais um pouco de uísque.

− Vocês acreditaram, não é? – e sorriu.

Entreolharam-se.

− Você só pode estar de sacanagem, Paulo. Quase mata a gente de susto.

Ele levantou o copo de uísque em sinal de “um brinde” e ponderou:

− Pois é, esse é o tipo de roteiro que eu escrevo. Não sei exatamente porque é tão difícil de vender. Pode ser que, talvez, eu ainda não tenha vivido tudo mesmo. Mas, que seja. Não viemos aqui para destilar nossos fracassos.

− Por falar em destilado, nosso uísque acabou, Zé. – avisou Alberto.

− Verdade. Mas, não se preocupe. O papai aqui trouxe coisa muito melhor. – Paulo sorriu. E levantando-se, dirigiu-se até a bancada da cozinha e pegou uma garrafa e dois copos. Voltou à mesa e se sentou.

− O que é isso?

− Uma garrafa de uísque artesanal, Zé. Estive na ilha de Islay, na Escócia, e comprei de um minúsculo produtor. É uma operação não comercial, o sujeito produz para consumo próprio e de sua família.

− “Islay”?

− Sim, Zé. Todo mundo acha que só se produz uísque nas Highlands, mas isso é bobagem. O que os senhores têm à sua frente é o estado da arte do “cachorro engarrafado”, do melhor amigo do homem.

Contemplaram a garrafa com interesse e curiosidade. Não tinha rótulo. A cor era de um âmbar mais escurecido do que o normal.

− Permitem? – E Paulo deu a entender que iria abrir a garrafa.

Os dois balançaram a cabeça afirmativamente. Paulo serviu um duplo para cada um. Eles pegaram e sentiram o aroma que vinha da bebida.

− “Triple Blending”: uísques de malte… misturados a uísques de grão. Depois, envelhecidos em barris de carvalho por seis meses. A garrafa diante de vocês tem quarenta anos.

− Muito generoso da sua parte, Paulo. Deve ter custado uma fortuna. Obrigado.

− Não há porque agradecer, Alberto.

Paulo consultou o relógio.

− Senhores, eu preciso ir. Está tarde e tenho outros compromissos ainda pendentes.

− Não vai beber com a gente? – perguntou José.

− Não… Esta garrafa foi um presente. No futuro, iremos nos reencontrar, senhores… E conversaremos sobre esta noite.

Eles não entenderam, mas sorriram. Podiam legar seu último comentário à conta das excentricidades de que ele sempre fora apreciador.

Paulo se despediu.

No dia seguinte, os jornais noticiaram a morte de dois homens em um quarto de hotel. E Paulo pode, enfim, dizer a si mesmo que já havia feito de tudo. Talvez, agora, conseguisse vender seus roteiros.

 

Com a participação de:
  • Rodrigo Watzl;
  • Vinicius Watzl;
  • Fernando Moura;
  • Olavo Dantas;
  • Pedro Quitete;
  • Tiago Santos.

 

Uma produção RPG Next.

 

Se você gostou deste conto e deseja conhecer uma história cínica e violenta de ficção científica, política e espionagem, que se passa nos bastidores do poder de um país extraordinariamente corrupto, cujo nome não é mencionado, acesse o link a seguir para meu livro “Herdeiros da Eternidade”:

 

 

 

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Contato

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  • Willian Yamashita

    Ótimo trabalho!!!
    Um feedback, achei a voz do Olavo meio baixa, em alguns momentos chegando a ser sobreposta pela musica de fundo. fora isso, excelente conto, deixou um gostinho de quero mais! queria ouvir outras histórias desse escritor.
    Abraços!

  • Pedro Quitete

    Valeu Willian!
    Obrigado também pelo feedback, nosso editor já averiguou o que ocorreu e corrigiu o problema para o futuro 😉
    Mais histórias virão 🙂

  • Concordo Willian. Mas o editor tá pegando o jeito aos poucos. 😉